Se
as previsões de crescimento econômico para este ano se
confirmarem, as empresas irão retomar a briga pelos talentos
A previsão de retomada econômica trouxe de volta uma discussão
que foi posta de lado em 2009: a guerra por talentos. A disputa por
bons profissionais voltará a se acirrar caso se confirme a projeção
de Produto Interno Bruto acima dos 5% para este ano. Diante do cenário
positivo, as empresas começam a se movimentar para encontrar,
internamente ou externamente, profissionais para sustentar seu crescimento.
Uma pesquisa feita pela consultoria Empreenda, de São Paulo,
em conjunto com a HSM, que promove seminários sobre negócios,
com 1 065 líderes no Brasil, dá uma prévia do que
pode vir.
Entre os entrevistados, 63% estão preocupados por não
ter gente suficiente para pôr em prática sua estratégia
corporativa nos próximos cinco anos. "Falta gente qualificada
no mercado", diz o consultor César Souza, presidente da
Empreenda. A DBM, consultoria de recolocação de executivos
com sede em São Paulo, divulgou que, no terceiro trimestre de
2009, a procura por gerentes, diretores e presidentes cresceu 36% em
relação ao mesmo período de 2008, quando a crise
financeira fazia estragos no país.
Com a retomada da disputa por profissionais,
o poder de negociação, por aumento ou promoção,
volta para as mãos dos empregados
De olho nos bons indicadores, as empresas estão acelerando a
formação de profissionais ou a busca por eles no mercado.
A CPFL Energia investirá 600 000 reais na preparação
de 30 funcionários que devem assumir cargos de liderança
nos próximos anos. “No ano passado, 58% das vagas foram
preenchidas com gente de fora”, diz Lucilaine Bellacosa, gerente
de desenvolvimento de pessoas da CPFL, com sede em Campinas, interior
de São Paulo.
Quem
vai procurar no mercado também já começou. No fim
do ano passado, o publicitário Nizan Guanaes, à frente
do grupo ABC, que reúne algumas das maiores agências de
publicidade do país, recomendou aos seus executivos que ficassem
de olho nos talentos. “Em 2010 vai ser mais difícil encontrar
gente boa disponível”, diz. Até mesmo o Google,
que é sonho de carreira de estagiários a executivos, está
se precavendo. A empresa de internet está mapeando as qualidades
essenciais da carreira de vendas em diversos países para criar
um recrutamento interno que funcione globalmente.
Tudo
para não ficar restrito à oferta de mão de obra
local, insuficiente para preencher as vagas abertas. Em dezembro, eram
60 posições em diversas áreas. Com a retomada da
disputa por profissionais, o poder de negociação do candidato
na hora de decidir por uma vaga volta a crescer.
A
crise tinha feito o pêndulo ir para o lado do empregador. O engenheiro
Daniel Terra, de 30 anos, acabou de ser promovido a gerente de contas
na Siemens Enterprise, depois de receber uma proposta para ocupar uma
gerência em outra multinacional. Antes, ele tinha um cargo técnico
na área de serviços. “Fui conversar com minha chefia,
que acabou me promovendo para a área que eu planejava”,
diz Daniel. “Nos últimos quatro meses, fizemos outras duas
ações de retenção para manter nossos funcionários”,
diz Malena Martelli, diretora de recursos humanos da companhia para
a América Latina.
“Estamos
enfrentando um cenário de competitividade do mercado pelos profissionais
disponíveis”, diz João Menezes, gerente-geral de
RH da mineradora Vale, a respeito dos engenheiros que trabalham em seus
projetos no norte do país. A companhia vem investindo na formação
de gente e, em dezembro, contratou todos os 29 alunos de seu curso de
pós-graduação em engenharia ferroviária
em São Luís, no Maranhão. No setor de infraestrutura
a guerra por talentos deve ser acirrada.
Isso porque os investimentos previstos pelo governo para Copa do Mundo
(2014) e Olimpíada (2016) devem criar uma infinidade de novos
empregos e, claro, não há gente sendo formada em número
suficiente pelos cursos de turismo e administração hoteleira.
O mesmo fenômeno acontece para engenheiros, economistas e administradores
nos segmentos de varejo, construção civil e energia. “Acredito
que a busca em 2010 será por líderes experientes, gente
de peso”, diz Francisco Ramirez, diretor da ARC, consultoria de
busca de executivos, de São Paulo. O headhunter aposta que, em
setores recém-consolidados, como alimentos e bancos, o cenário
não será tão favorável. “Nessas fusões,
sempre fica sobrando gente.”
OS
SALÁRIOS SOBEM?
A disputa por gente só não serviu ainda para inflacionar
os salários nos níveis executivos — um fenômeno
que perdurou até meados de 2008. “Não prevemos uma
guerra salarial, mas as empresas que estão com os salários
congelados e as que fizeram reajustes abaixo dos 6% correm riscos de
perder seus funcionários”, diz Gustavo Tavares, consultor
de remumeração do Hay Group, em São Paulo.
Entre os clientes da consultoria, um terço fez algum tipo de
congelamento de salários ou promoções no ano passado.
“Agora, todos os aumentos e contratações que ficaram
parados devem vir de uma vez só, em forma de contratações
e aumentos, acirrando a disputa.”
Fabiana Corrêa (O
texto apresentado foi extraído da revista VOCÊ S/A, cabendo
a fonte apresentada o crédito pela mesma).
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