Conheça os erros que os recrutadores e
os profissionais cometem durante a entrevista de emprego e aproveite
melhor a próxima oportunidade de mudar de trabalho
Neste início de ano, o mercado de trabalho está aquecido
e receber uma proposta de emprego voltou a ser frequente. “Em
praticamente todas as áreas está ocorrendo uma retomada
de planos de contratação”, diz Marcelo De Lucca,
diretor executivo da Michael Page, empresa de recrutamento com sede
em São Paulo. Nessa fase, um velho fantasma assombra os profissionais:
a entrevista de emprego. Muita gente ainda comete deslizes durante o
processo de seleção. Despreparo e ansiedade excessiva
são as principais razões que levam as pessoas a desperdiçar
a oportunidade de conquistar um emprego melhor.
Os
recrutadores também falham. No final do ano passado, um grupo
de 40 profissionais de diversos setores e de todas as partes do Brasil
se reuniu pela internet e passou a trocar informações
sobre as más experiências por que passaram durante a disputa
por uma vaga. Das conversas, saiu uma lista de 13 hábitos que
headhunters e áreas de seleção das empresas deveriam
evitar. Em geral, os recrutadores sabem lidar com situações
inusitadas e gafes dos candidatos. E avisam que só casos extremos
realmente comprometem o entrevistado. O bom headhunter procura fazer
uma avaliação profissional do candidato sem dar espaço
para reações emocionais.
“Não
cabe ao recrutador se envolver pessoalmente ou se irritar porque o profissional
fala de determinada forma ou tem certa postura”, diz Juliana de
Lacerda, sócia-diretora da consultoria Gnext, em São Paulo.
De maneira geral, os casos graves tanto para um lado quanto para o outro
são as exceções. Os recrutadores lembram ainda
que um perfil de candidato pode ser ótimo para uma empresa e
péssimo para outra. “O headhunter competente sempre busca
atender às necessidades da companhia que o contratou”,
explica Juliana.
FALHAS
DO CANDIDATO
Um comportamento que elimina o candidato em uma entrevista de emprego
é falar mal de ex-chefes. “Já aconteceu de um executivo
criticar a própria empresa pela qual ele estava concorrendo à
vaga”, diz Ana Paula Passarelli, headhunter da Passarelli Consultores,
em São Paulo, que trabalha com posições de alto
escalão. Sempre se pede ao candidato que não minta nas
competências, como fluência em inglês, ou apresente
falsas referências profissionais. Omitir questões importantes
para a posição também não adianta: você
será desmascarado mais cedo ou mais tarde. “Um candidato
escondeu ter medo de avião durante uma seleção
para uma vaga que previa muitas viagens”, conta Ana Paula. “Ele
foi contratado e demitido logo depois.” Seja honesto. Se você
for o candidato ideal, a empresa vai contratá-lo independentemente
de um ponto fraco, que poderá ser trabalhado, depois, em treinamentos.
Um
processo seletivo é coisa séria. Se você não
pretende deixar seu emprego, não entre na disputa. Headhunters
dizem que é comum encontrar gente que está interessada
apenas em testar a empregabilidade ou saber se o salário está
na média do mercado. “Ninguém quer perder tempo
com leviandades. Há outros meios de conhecer a remuneração
para sua função, como pesquisas de mercado ou mesmo sondagens
com conhecidos do meio”, diz Carlos Eduardo Ribeiro Dias, sócio-gerente
da Asap, divisão da Fesa, que recruta jovens gerentes. Mesmo
para quem estásatisfeito na empresa atual, é praxe haver
uma conversa pessoal. Para ir além desse ponto, avise o recrutador
que a intenção de deixar o cargo atual é baixa,
até porque, em muitos casos, o headhunter não pode dizer
num primeiro momento qual é a empresa e o salário oferecido.
Os
recrutadores percebem logo quando o profissional está tentando
enrolar. Por isso, seja objetivo e evite ficar contando histórias
longas. Fuja de perguntas que visam verificar uma determinada competência
ou experiência. “Também recomendo tomar cuidado para
não discutir detalhes sem importância da contratação,
como a marca do celular que a empresa oferece”, diz Danielle Sarraf,
diretora de RH do grupo de agências publicitárias PPR e
ex-headhunter da Mariaca & Associates. É importante ser flexível
e encontrar na agenda um horário para fazer as entrevistas inerentes
ao processo. A contratação pode não ser definida
apenas pelo headhunter — o mais comum, aliás, é
que um gestor da empresa também converse com o candidato. “Em
alguns casos eu já fiz as primeiras entrevistas, a companhia
contratante quer conhecer o candidato e tem gente que fi capropondo
horários inviáveis ou remarcando inúmeras vezes”,
diz Carlos Eduardo, da Asap. Obviamente, na cabeça da empresa
e do caça-talentos, isso sinaliza pouco interesse do candidato.
Se você já se decidiu por recusar um convite, diga o quanto
antes aos envolvidos.
QUANDO
O RECRUTADOR ERRA
Uma questão que irrita bastante os candidatos a um emprego é
a falta de feedback dos recrutadores. A queixa é que os headhunters
desaparecem após a entrevista, sem dizer por que o candidato
não ficou com a vaga. “Com exceção de cargos
altos, o que se pode fazer é dar retorno técnico, se ele
foi bem ou não no inglês, por exemplo”, diz Fabiana
Nakazone, gerente da DM Especialistas, divisão do grupo DMRH,
responsável pela seleção de profissionais até
cargos de média gerência para companhias como Unilever,
Johnson & Johnson e Dow Chemical. “Mas recomendar que um candidato
mude características da sua personalidade só porque uma
empresa não gostou é colaborar para limitar a visão
do profissional em relação a outras oportunidades.”
Pregar
rótulos em candidatos é uma atitude errada, mas que ocorre.
O engenheiro Carlos Reimer, de 33 anos, gerente de operações
da companhia de calçados Kenner, em Campina Grande, na Paraíba,
conta que foi difícil superar o estereótipo quando deixou
uma empresa estatal de energia. “Era visto como o funcionário
público que tem salário alto e produtividade baixa, o
que, em tese, significaria falta de ambição”, explica
Carlos. O candidato não precisa responder a perguntas que nada
tem a ver com o cargo. “O foco na entrevista deve ser o lado profissional,
mas já vi recrutador verificar a posição social
do profissional”, diz a psicóloga Ana Fraiman. Num caso
assim, questione que diferença isso faz. Perguntas constrangedoras
também ocorrem e, dependendo do tom, o melhor a fazer é
descartar a empresa rapidamente, como conta Márcia Hasche, da
consultoria Valor Pessoal, especializada em clima organizacional.
“Um
recrutador certa vez perguntou se eu tinha filhos e o que fazia para
evitar”, lembra. Headhunters também têm problemas
em otimizar a agenda. No ano passado, um caça-talentos pediu
ao administrador de empresas Edson Salvio Jr., de 39 anos, atualmente
desempregado, que adiantasse em uma hora o início da entrevista.
“Quando ele ligou, faltava apenas uma hora e meia para o novo
horário sugerido. Topei, mas avisei que poderia me atrasar uns
15 minutos. Chegando lá, ele fez a entrevista às pressas
porque já havia outro candidato esperando”, diz Edson.
“Pior que isso só quando um entrevistador marcou o encontro
na praça de alimentação de um shopping em pleno
horário de pico. E a conta ficou para eu pagar.”
CUIDADO
COM FALSOS RECRUTADORES
O cientista da computação Samuel Vaz, de 30 anos, analista
de tecnologia da Webfoundations, em São Paulo, caiu numa cilada
conhecida no mercado. Foi convidado a participar de um processo mas,
na hora da entrevista, descobriu que do outro lado não havia
um headhunter. “Era uma empresa que oferece aconselhamento de
carreira e assessoria de análise de currículo”,
lembra. O serviço custaria 2 000 reais. “Ela até
conseguia marcar entrevista com uma ou outra empresa, mas ficava sob
minha responsabilidade convencê-la a me contratar. E só
avisavam que o serviço seria cobrado no meio do terceiro encontro”,
diz Samuel.
AS 13 MAIORES MANCADAS DOS CANDIDATOS, NA OPINIÃO DOS
RECRUTADORES
1
Omitir fatores que são requisitos importantes para a posição,
como a impossibilidade de mudar de cidade ou de viajar com frequência.
2 Discursar autoelogios, usando adjetivos batidos como “dinâmico”,
“criativo”, “inovador”, e tudo na primeira pessoa:
“eu fiz”, “eu consegui”.
3 Perder a linha de raciocínio contando “causos”,
ou se justificar em excesso, fazendo papel de vítima.
4 Questionar detalhes pouco importantes em uma primeira entrevista,
como qual modelo de celular a empresa oferece.
5 Faltar ao encontro e não avisar com antecedência, ou
cancelar e remarcar várias vezes.
6 Não ser transparente ao explicar o motivo do desligamento das
empresas em que trabalhou.
7 Não dar bola a uma sondagem por estar bem empregado ou por
considerar- se muito competente.
8 Dar sequência a um processo seletivo apenas para testar a empregabilidade,
ou para saber se o salário está na média e desistir
depois.
9 Fazer leilão do tipo “quem paga mais” entre as
ofertas da nova empresa e as contrapropostas da empresa atual.
10 Manter o celular ligado durante a conversa. Pior ainda quando resolve
atender
11 Exceder na ansiedade e ficar perguntando todos os dias sobre o andamento
do processo 12 Insistir para que o entrevistador revele o pacote de
remuneração, ou a empresa contratante, antes da hora.
13 Falar de forma negativa ou revelar informações confidenciais
sobre as empresas em que atuou e sobre os profissionais com quem trabalhou.
AS 13 MAIORES MANCADAS DOS RECRUTADORES, NA OPINIÃO DOS
CANDIDATOS
1
Não dar feedback: se o currículo chegou, se a vaga foi
fechada, se o candidato já foi excluído...
2 Não estudar com antecedência o currículo do candidato
e fazer uma leitura dinâmica instantes antes ou mesmo durante
a entrevista.
3 Marcar encontros em lugares inadequados e barulhentos, como shoppings
e cafés
4 Fazer perguntas que invadem a privacidade do entrevistado, como o
desejo de ter filhos, ou se é casado de papel passado.
5 Rotular o profissional tomando por base o perfil de alguma empresa
em que trabalhou.
6 Confidenciar “estou trabalhando esta vaga por fora da empresa
que represento”
7 Chamar para entrevista usando uma determinada vaga como isca, mas
entrevistar para outra, cuja função e salário não
são condizentes.
8 Chamar para entrevista apresentando uma oportunidade e, no meio da
conversa, revelar: “Queria apenas conhecê-lo”.
9 Entrevistar dois candidatos simultaneamente para “ganhar tempo”
ou fazer a entrevista às pressas porque o candidato seguinte
já chegou.
10 Durante a entrevista, permitir ser interrompido por terceiros, atender
ao celular, sair da sala, ler e-mails...
11 Dizer que vai passar o candidato para a próxima fase e sumir
sem dar nenhuma satisfação.
12 Medir visualmente o candidato de cima a baixo, antes mesmo da conversa
ser iniciada.
13 Fazer perguntas ou insinuar brincadeiras preconceituosas relacionadas
à religião, cor da pele, preferência sexual e aparência
física.
Bruno Vieira Feijó, 08/03/2010 (O texto descrito por Bruno Vieira
Feijó foi extraído da Revista Você S/A, cabendo
a fonte apresentada o crédito pela mesma).
Se você achou interessante o tema e quer enviar
um comentário sobre o assunto ou ainda gostaria de ler sobre
assuntos similares, envie seu e-mail para faleconosco@apiegel.com.br
Voltar