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PESSOAS: UM ATIVO INATINGÍVEL?
 


Há algum tempo, recostado confortavelmente na minha cadeira, recebo uma ligação. Do outro lado do telefone, uma voz aflita e atropelada denunciava certa ansiedade. "Aqui quem fala é Roberto (fictício)", iniciou a conversa. "Trabalho em um banco, e acabei de receber a informação que ele está sendo vendido", continuou. E concluiu: "Eu e mais quatro profissionais vamos sair daqui juntos, ao mesmo tempo, porque não queremos mais permanecer nessa instituição", sacramentou, antes de desligar. Poucos dias depois, fui informado de que a promessa foi cumprida. Eles não só saíram como carregaram consigo vários deals e clientes para outra organização. Saiu perdendo o comprador que não conseguiu mantê-los.

Esta pequena passagem, na verdade, escancara um novo tipo de situação na rotina das grandes corporações. Numa realidade de ativos baratos para os estrangeiros, leia-se aqueles que tem dólares para investir no Brasil e crescem por meio de compras, e a atividade de M&A crescendo, uma questão paira no ar nestas operações: por que as empresas vendidas no mercado custam mais do que seu valor contábil? Algumas mais do que 4,4 vezes este valor, segundo as últimas pesquisas americanas. Qual o segredo? O motivo: os ativos intangíveis, mais especificamente, as PESSOAS.

É claro que é mais fácil entender estes ativos quando se trata da venda de uma empresa de consultoria, ou agência de publicidade ou um banco de investimento, pois lá só se vê pessoas (e micros). Mas esta realidade, sem dúvida nenhuma, está presente em todos os setores da economia. Trabalhadores do conhecimento que carregam consigo todo um expertise acumulado, um network, um track record invejável de realizações.

Você até pode "precificá-los" numa tentativa de retê-los numa eventual compra. Mas, sinceramente, nunca irá possuí-los. É preciso torcer para que os melhores executivos sintam-se confortáveis com a nova estrutura, atividades e desafios. Em outras palavras: é fundamental arrumar alguma fórmula de garantir que aquele profissional que trabalhou até o fim da noite do dia anterior, retorne na manhã seguinte, disposto e motivado a encarar a nova jornada. Reter talentos tornou-se tarefa instigante para os profissionais de RH, um verdadeiro quebra-cabeça para as empresas que se propõem a modernizar suas relações.

Neste sentido, minha experiência mostra que nem mesmo o melhor dos planos de retenção é capaz de deter um profissional em busca de sua realização. Talvez a melhor forma de pensar o capital humano de uma organização seja como um investimento que traz um retorno proporcional ao risco de perdê-lo para o mercado. Quanto melhor o profissional, mais fácil perdê-lo (alguém sempre pode pagar mais, oferecer mais benefícios, anabolizar o bônus etc). A maior dificuldade, na minha opinião, é equacionar o fosso existente entre reconhecer a importância desses profissionais com práticas eficientes de mantê-lo no cargo.

Quanto maior o cuidado em entender as aspirações, desejos e necessidades intrínsecas de cada executivo, melhores as chances de obter o retorno desejado (antes que ele decida ir embora). Temos um longo caminho pela frente.

Denys Monteiro para o Jornal Valor - Carreira
(O texto apresentado foi extraído da fonte citada, cabendo a fonte apresentada o crédito pela mesma).

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