Para
Thomas Malone, autor do livro O Futuro dos Empregos, planejar a carreira
ainda é fundamental. Mas ele alerta: é preciso reavaliar
os projetos constantemente
Professor de liderança
e tecnologia da informação na escola de administração
MIT Sloan School of Management, nos Estados Unidos, o americano Thomas
Malone estuda, há mais de 20 anos, as implicações
da informática no mercado de trabalho. Seu livro O Futuro dos
Empregos (Editora MBooks), lançado em 2004, já é
um clássico sobre trabalho e vida moderna. Nele, Thomas mostra
como a internet transformou o emprego tradicional, proporcionando aos
profissionais maior flexibilidade e liberdade para escolher os rumos
de suas carreiras. Em entrevista a VOCÊ S/A, ele explica como
planejar o futuro profissional em um mundo cheio de possibilidades.
Em O Futuro dos Empregos o senhor diz que será cada vez
mais comum as empresas contratarem colaboradores que trabalharão
por projetos, longe do escritório. Pensando nesse cenário
flexível, faz sentido planejar a carreira?
Planejar ainda é útil, mas é preciso mudar a maneira
de pensar o futuro. Em vez de imaginar a carreira em apenas uma companhia,
é importante refletir sobre movimentações complexas.
O escritor americano Alvin Toffler previu este cenário em 1970,
dizendo que os trabalhadores teriam trajetórias profissionais
flexíveis, mudando frequentemente de emprego. A previsão
está sendo concretizada. E a tendência para o futuro é
construir o “portfólio de carreira”: trabalhar em
diferentes projetos ao mesmo tempo.
Qual
é a melhor maneira de pensar a carreira atualmente?
É importante começar pensando sobre as áreas nas
quais se tem mais competência e afinidade. Depois dessa seleção
fica mais fácil pensar em trabalhos remunerados e não
remunerados (como a atuação numa ONG, por exemplo), que,
combinados, ajudam um profissional a ganhar experiências e assim
desenvolver a carreira.
Em
O Futuro dos Empregos há a seguinte frase: “Se as situações
mudam bastante, nem sempre é possível planejar tudo. Então,
improvise”. Como improvisar de maneira eficiente?
Improvisar não significa deixar de pensar sobre o futuro. A improvisação
é importante para, ao longo dos anos, se fazer ajustes no plano
geral de carreira — modificações que ocorrem de
acordo com o surgimento de novas oportunidades e novos obstáculos.
Mas é importante estabelecer objetivos gerais a serem cumpridos.
Como
estabelecer essas grandesmetas num mundo repleto de possibilidades?
Nas minhas aulas sugiro uma maneira eficiente para definir esses objetivos.
Imagine-se bem velhinho e responda: “O que quero conquistar para,
no fim da vida, me orgulhar do que fiz?”.
O
que interessa mais para as empresas: profissionais generalistas ou especialistas?
A grande tendência é as empresas procurarem por profissionais
altamente especializados, mas com conhecimentos gerais em outras áreas.
Como
as novas gerações vão mudar a maneira como encaramos
o trabalho?
Os jovens veem o trabalho com mais despojamento. Eles esperam usar a
tecnologia livremente, em casa ou no trabalho. Por isso cresce a exigência
por mais liberdade dentro do escritório. Felizmente, tecnologia
e liberdade andam juntas: o livre acesso à informação
vai ajudar essa geração a conseguir embasamento teórico
para escolher, de maneira mais sensível, os rumos da carreira
e da vida.
Quais
empregos exemplificam a nova forma de enxergar o trabalho?
Um bom exemplo são os profissionais que trabalham com vendas
no site de comércio online eBay. Há maisde 700 000 pessoas
vivendo disso. Elas são donas do próprio negócio,
não têm chefes e dependem apenas de uma infraestrutura
eletrônica global fornecida pelo eBay para trabalhar. É
um modo colaborativo de pensar o trabalho.
De
que maneira a visão mais livre do mercado de trabalho vai mudar
o alto comando das empresas?
Hoje, as lideranças existem para “comandar e controlar”.
As empresas precisam mudar essa visão e usar a chefia para “coordenar
e cultivar”. O papel dos profissionais de alto escalão
é assegurar que as melhores decisões sejam tomadas e as
soluções mais criativas podem surgir em qualquer nível
da hierarquia. Para extrair o melhor dos empregados, a chefia tem de
cultivar o potencial de cada um de seus profissionais. A liderança
será cada vez mais colaborativa, exercida por todos os funcionários.
O
que ocorrerá no futuro com profissões tradicionais, como
engenharia e administração de empresas?
Ainda haverá espaço para esses profissionais. O que vai
mudar é o modo de trabalho: eles terão mais liberdade
nas grandes empresas e serão chamados para trabalhar em projetos.
Os empregos de longuíssimo prazo estão com os dias contados.
No
futuro, o que medirá o sucesso profissional?
O sucesso será um reflexo da reputação, e não
do cargo. Um profissional vai preferir ter o respeito e a admiração
de sua rede de contatos do que ostentar um cargo executivo no cartão
de visita. E, mais importante, o sucesso não será medido
apenas pelo dinheiro. As pessoas passarão a dar mais valor à
satisfação pessoal: o trabalho precisa trazer também
felicidade.
(O
texto descrito por Eliza Tozzi foi extraído da Revista Você
S/A, cabendo a fonte apresentada o crédito pela mesma).
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