Você
deve se lembrar de alguém do seu departamento ou da sua empresa
que domina muito determinado assunto com o qual trabalha. Mas sabe que,
quando este mesmo profissional é requisitado para transmitir
os conhecimentos aos colegas – seja numa reunião, numa
palestra, treinamento, entre outros – não consegue passar
bem a mensagem, e pior: treme na base só de pensar que precisa
se relacionar com outras pessoas.
Estes
profissionais, extremamente técnicos e competentes em sua função,
mas que não possuem habilidades comportamentais são em
grande número nas empresas, mas tem período curto de validade,
pelo menos nas organizações maiores, mais sérias,
atualizadas e exigentes.
Isso
porque os tempos são outros, diferentes do tecnicismo da Revolução
Industrial, e exigem pessoas com múltiplas habilidades. Quem
souber mais, dominar mais, e saber gerenciar melhor sua carreira e seus
relacionamentos, sai à frente na disputa selvagem do mercado
e garante, nem que seja por mais alguns anos (até outras tantas
habilidades serem requisitadas) no mercado de trabalho.
Quem vivenciou história semelhante à citada no início
da matéria é o diretor geral da Iluminatta Brasil –
Consultoria Internacional em Desenvolvimento Humano – Nicolai
Cursino. “Todos nós já tivemos um professor que
conhece muito, sabe demais sobre o assunto, mas não tem a competência
para fazer com que os outros aprendam aquilo. Então, existem
duas situações diferentes: uma é aquela em que
você se habilita a ser um excelente técnico apenas; outra
é se habilitar a passar essa informação. E neste
último caso, é preciso saber como o outro recebe a mensagem
e adaptar a linguagem para isso”, conta.
Não
é necessário que uma pessoa nasça com essa habilidade
de relacionar-se, mas isso deve ser trabalhado o quanto antes, visto
que a ascensão profissional e até o dia-a-dia de qualquer
função, requer este conhecimento. “Trabalho liderança
com vendedores que conseguem bater metas, vender muito e fazer o que
ninguém fazia. Mas, chega a um momento na carreira que ele tem
que se tornar gestor de outros vendedores. Ele tem uma enorme dificuldade,
porque sabe ser aquilo, mas não sabe fazer com que os outros
sejam os melhores que podem ser”.
E
exemplifica: “Existe até uma questão de tempo interessante.
Por exemplo: um técnico gasta grande parte do tempo tentando
melhorar aquela técnica. Na hora que vira gestor de pessoas,
vai usar cerca de 50% deste tempo não mais melhorando a própria
habilidade e sim desenvolvendo a habilidade do outro. Muitas vezes é
um choque para pessoa, que tem a impressão, ao final do dia,
que não trabalhou. Mudam as habilidades que devem ser trabalhadas”.
Essa
necessidade de aliar conhecimentos específicos de uma área
com conhecimentos gerais que englobam relacionamento entre pessoas sempre
foi algo necessário nas empresas, embora não tão
explicitamente e pregado pelas organizações de forma tão
enfática. Nicolai, inclusive, atribui a uma herança da
cultura brasileira.
“Na
época da Revolução Industrial as pessoas foram
preparadas para serem peças de fábricas. Pararam de trabalhar
a inteligência emocional, de pensar ‘fora da caixa’.
Hoje é uma evolução fazer o caminho contrário”,
conclui.
O
diretor do Clube dos Gestores, Luiz Ragonha Júnior vai além
nesta questão, ou seja, nos motivos que podem levar os profissionais
a não desenvolverem essas habilidades, hoje tão requisitadas.
“Primeiro
acho que pode ser uma herança do grau de educação
que a pessoa recebeu na sua casa e na escola; também há
diversas faculdades técnicas que não focam habilidades
comportamentais, apenas em teoria; há falta de orientação
nas empresas, entre liderados e líderes e, por fim, falta de
treinamento no mercado: encontramos cursos, mas falta alguém
pra ‘pegar na mão’ e ensinar como deve ser feito”,
lista.
Não
é regra, mas pelo fato de lidar com informações
novas a cada momento, e com uma gama de assuntos técnicos a dominar,
uma das áreas que mais registra esse abismo entre técnica
e comportamento, é a área de tecnologia de informação.
“É um gargalo muito nítido, pois imagine você
em um computador 90% do seu dia, fissurado em tecnologia, soluções
técnicas, com o mercado mutante que é a área de
TI e as novidades saindo a cada minuto. Isso leva a uma fixação
pela busca do conhecimento técnico, até pela necessidade
de tê-lo, ficando as habilidades comportamentais em segundo plano”,
explica.
Independente
da área de atuação, uma coisa é certa. “Não
tem como, nos dias de hoje, saber apenas os conhecimentos técnicos
e não relacionar-se com as pessoas. Vai chegar uma hora em que
você vai ter que interagir com quem está ao lado, seja
para negociar recursos ou vender sua ideia. Enfim, existe um sistema
de pessoas e você, sozinho, não vai conseguir chegar a
lugar algum”, sintetiza Cursino.
Fonte: News Letter Carreira e Sucesso, por Tatiana Aude
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